Ninguém mandava telegramas desde os anos oitenta, mas a tia Esperança mandou um. Chegou a Luanda numa terça-feira, dobrado em quatro, com três palavras escritas a maiúsculas: CASA. MANGUEIRAS. VENHAM.

O Abel leu-o duas vezes na varanda do apartamento e depois ligou ao irmão.

— A tia ficou maluca — disse o Domingos do outro lado da linha, em Lisboa, onde eram cinco da manhã. — Quem é que manda telegramas?

— Alguém que quer ter a certeza de que lemos.

Ficaram calados. Entre os dois, a casa de Ndalatando crescia como crescem as coisas que não se dizem: as paredes amarelas, o quintal enorme, as sete mangueiras que o avô plantara uma por cada neto, mesmo antes de os netos nascerem.

— E a Lena? — perguntou o Domingos.

— A Lena não atende há três meses.

— Então manda-lhe um telegrama.

O Abel riu-se, pela primeira vez naquela semana. Depois desligou, olhou para a cidade lá em baixo e pensou que talvez fosse isso mesmo que ia fazer.