A estrada estava melhor do que o Abel se lembrava e pior do que o GPS prometia. Passado o Dondo, o verde começou a fechar-se dos dois lados, e com o verde vieram as lembranças: o pai a conduzir com o braço de fora, a mãe a distribuir pão com chouriço pelos três filhos no banco de trás, a Lena a vomitar sempre na mesma curva.
Parou nessa curva. Não sabia porquê. Saiu do carro, olhou para a ravina, e o cheiro da terra molhada trouxe-lhe uma vontade de chorar que não sentia desde o funeral da mãe.
Um rapaz que vendia bananas aproximou-se.
— Está tudo bem, mais-velho?
Mais-velho. Tinha quarenta e dois anos e era a primeira vez que alguém o tratava assim. Comprou as bananas todas.
Quando chegou a Ndalatando já era de noite. A casa estava às escuras, menos uma janela, a da cozinha, onde a tia Esperança esperava sentada, de lenço na cabeça, como se nunca tivesse saído dali.
— Chegaste — disse ela. — Os outros também vêm. A Lena chega amanhã.
— Como é que sabe?
A tia apontou para o quintal. No escuro, o Abel contou as mangueiras. Seis.
Comentários
Seja o primeiro a comentar.
Entre para comentar.