De manhã, à luz, o buraco era ainda mais evidente. Onde antes estava a sétima mangueira, a mais nova, a da Lena, havia agora um círculo de terra remexida e um tronco cortado rente ao chão.

— Foi o vento? — perguntou o Abel.

— Foi uma empresa — disse a tia, a servir o café. — Querem comprar o terreno. Mandaram um engenheiro medir e o engenheiro achou que a árvore estava a atrapalhar.

— E a tia deixou?

— Eu estava no mercado.

O Abel saiu para o quintal descalço, como fazia em criança. A terra estava fria. Ajoelhou-se junto ao tronco e passou a mão pelos anéis da madeira, tentando contar os anos da irmã.

Foi assim que a Lena o encontrou quando chegou, uma hora depois, com uma mochila às costas e o cabelo cortado curto: ajoelhado no lugar da árvore dela, a contar anéis em voz baixa.

— Já vais em quantos? — perguntou ela.

Ele levantou a cabeça.

— Perdi-me no vinte e três.

— Tenho trinta e oito — disse a Lena. — Mas obrigada pela intenção.